A política como substituta da esperança.

Homem sentado entre escombros de concreto, observando ao longe o Congresso Nacional de Brasília sob um céu carregado, com luz do entardecer ao fundo. A imagem representa reflexão sobre a política, esperança e o cenário institucional brasileiro.

Quando esperamos que homens e instituições resolvam aquilo que talvez esteja além deles.

Há pessoas que acordam pensando em política, passam o dia acompanhando política e terminam o dia discutindo política. A cada eleição, uma nova esperança é depositada em um nome. A cada derrota, uma frustração. A cada vitória, a entrega de uma confiança cega na promessa de que o futuro ideal finalmente bateu à nossa porta.

E então: talvez o problema não esteja apenas na política. Talvez esteja naquilo que esperamos dela.

Sob os escombros

Eu faço parte do grupo de pessoas descrito acima. Acordo consumo e discuto política diariamente. No entanto, ao contrário do que muitos possam pensar, não faço isso porque tenho minha esperança depositada em um candidato específico, ou porque acredito que a próxima eleição trará a salvação da lavoura. Não se trata de uma busca idealista pelo ápice do desenvolvimento social ou por um futuro brilhante.A realidade é muito mais urgente e cansativa: não estamos escolhendo a cor da pintura ou o luxo da decoração de uma casa nova; o teto desabou e nós estamos sob os escombros.

Minha vigília diária não é por otimismo, mas por uma necessidade quase desesperada de ver o país sair do buraco. Minha torcida não é para ver o prédio pronto, mas para que a gente consiga, finalmente, remover o entulho e voltar a enxergar as fundações. Chegar ao nível do chão, mesmo sem nada construído ainda, já seria uma vitória monumental. Antes de pensarmos em erguer paredes novas, precisamos passar pelo doloroso processo de limpar a sujeira e os absurdos que foram normalizados. É um esforço monumental apenas para recuperar o piso que perdemos. Política não é salvação, é faxina, e acompanhar o debate público hoje virou um exercício de sobrevivência sob os escombros.

O colapso do senso de proporção

A maior prova de que estamos operando nesse “subsolo” do debate público não é apenas a economia ou as leis; é a perda completa da noção de contexto e de proporção.

Recentemente, recebi uma mensagem de uma pessoa com nível superior de estudo completo afirmando piamente que “o atual presidente do Brasil (2023/2026) é o maior estadista que o mundo já viu”. O mais assustador é saber que isso não é uma afirmação que parece nascer de uma consciência adquirida através de uma reflexão política, mas apenas a repetição de uma afirmação que simplesmente foi jogada ao vento e ecoada de forma minimamente desonesta. Independentemente de espectro político ou de preferências ideológicas, uma declaração dessas mostra uma falta de proporção assustadora.

Como nivelar o debate desta forma quando a história nos deu figuras da magnitude de um Winston Churchill, que carregou o peso de guiar o mundo livre contra a barbárie nazista? Ou Abraham Lincoln, que evitou a dissolução de uma nação e colocou fim à escravidão nos Estados Unidos? Como esquecer o sacrifício e a liderança de Nelson Mandela na transição pacífica de um país dilacerado pelo apartheid? Ou a seriedade institucional de um Clement Attlee na reconstrução da Grã-Bretanha pós-guerra?

Quando a paixão política cega a ponto de ignorar essas proporções, percebemos que o problema atual é de cognição e de sanidade cultural. Estamos vivendo uma espécie de loucura coletiva, onde a régua da mediocridade foi rebaixada ao extremo.

A busca pelo mínimo aceitável

Portanto, quando voltamos os olhos para a frase “talvez o problema esteja naquilo que esperamos da política”, para mim, o significado é outro. Eu não espero que a política resolva os problemas da minha alma ou crie uma utopia. Eu só espero que ela devolva ao debate público um mínimo de sobriedade, lógica e contexto.

Não se trata de depositar fé cega em homens ou instituições. Trata-se de acompanhar, pressionar e participar para que a engrenagem pare de girar ao contrário. Esperar da política que ela seja o “salvador da pátria” é um erro de quem busca religião no Estado, de quem busca no Estado aquilo que somente uma esperança maior poderia oferecer. Mas esperar que ela funcione minimamente, que respeite a realidade dos fatos, que preserve algum senso de proporção e que permita ao cidadão distinguir o razoável do absurdo não é pedir demais.

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