Da alienação à impotência diante da política
O ato de votar inconscientemente em um candidato escolhido através de um santinho recolhido no chão, em frente à zona eleitoral — hábito tão comum que talvez diga algo sobre a relação do cidadão brasileiro com a política — nasceu a partir de um simples ditado popular ou foi algo intencionalmente inculcado na mente do cidadão brasileiro?
Há cinco anos, decidi romper com essa alienação nascida da crença de que política não se discute. Porém, após esse tempo acompanhando a política brasileira diariamente, deparei-me com o choque entre a expectativa e a realidade. O que encontrei foi uma mistura da mais profunda indignação e sensação de impotência, que me levou a um sentimento de arrependimento por ter desatado a venda que tapava meus olhos. A descoberta de como a política funciona em suas mais profundas entranhas, associada à enxurrada diária de notícias ruins, asfixiou aquela ingênua expectativa de que, para mudar a realidade, basta querer e agir.
De repente, o cenário político tupiniquim revela que o sistema pode ter sido construído não somente de maneira a manter-se blindado, mas que, assim como a literatura distópica e realista frequentemente aponta, também contribui para produzir a apatia que passa a tomar conta do que antes era preenchido pela expectativa de que mudar a realidade ao redor era possível. Diante de tanta sujeira nas entranhas da política, a vontade que dá é de colocar a venda de volta, desligar a “TV” e fingir que nada está acontecendo para recuperar a paz de espírito.
Mas o que acontece quando as pessoas honestas e conscientes desistem por cansaço? O espaço não fica, então, ainda mais livre para que os mesmos de sempre continuem ocupando os espaços de poder? Talvez a impotência não seja apenas uma consequência da realidade política, mas também um dos elementos que contribuem para o isolamento de quem gostaria de transformá-la. E o isolamento coletivo, parece-me, é exatamente o que o sistema quer.
A consciência política é um caminho sem volta, mesmo que doa. Diante de tamanha aflição, ter bom ânimo é imperativo. Manter a lucidez e a coragem, mesmo em um cenário tão adverso, é um dom visto em quem se recusa a deixar que as circunstâncias destruam a essência e o propósito de vida do indivíduo.


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